A GULA I
Deixa de ser guloso menino
Quando estou com você,
Me sinto sempre devorada,
Pela força das palavras
Que brotam do seu silêncio.
Vejo em você uma gula,
Uma ansiedade,
Um desejo de me devorar
De tal forma me devorando,
Começando
Pelas pontas dos dedos das mãos
e dos pés.
Às vezes eu te sinto, arrancando
Minhas unhas e meus dedos
Dos meus pés e de minhas mãos.
Lambendo o sangue que escorre
Da ponta dos meus dedos
Cujas unhas você também arrancou.
Sofrega e carinhosamente ,
O sangue que deles escorre,
Como aquele pai ou aquela mãe
Dizendo em voz que apascenta:
Você diz : Não chora, “Vai passar,
Não fica triste, vai passar.”
Te sinto também tirando a cadeira da sala,
Rasgando o sofá
Desarrumando a cama.
Tudo para engolir a minha alma.
Menino guloso que não espera
Que só devora, devora
Se escora em mim e passa brilhante
pela porta da frente
Sem nem se anunciar.
terça-feira, 26 de maio de 2009
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